Raciocino elíptico
Não existe esfera
de que o globo ocular
seja tela.
Nem sustentam as pirâmides
um só triângulo sem dispor
seu plano.
Não se prova um prisma
sem notar que as paralelas
sobre si deslizam.
Nem existem os cilindros
mas cones apenas, sem ponta.
Pouco duvido de que os círculos
sejam só linhas retas muito longas.
Não encontro um ponto
que não seja reta
que percorro
e que não seja esfera
quando disse: encontro.
Arapuca
A página
Aberta
Enjaula
O poema
Deveras
O branco
Polar
Da fera
Inócuo
Guardião
Do
Refrigerador
Ou isca
À espera
De espécie
Maior.
Solipsismo
Meu poema o tens
como ninguém,
virando uma esquina
(página de rua),
desse de cara com
um porco espinho
ou uma rosa.
Seixo no ieieiê
Deve ser duro ser pedra
num mundo de vento e vermes
(a moviola desarvorada), ser
tão quieta e inerte, e as lagartas
com mil pézinhos que fazem
cócegas e que teimam em se liquefazer
ainda mais em falenas.
A lua corre tanto atrás do sol, tão tola...
nem nota que partiu na frente.
Os mundos rolam, sobre eles seres correm,
e a pedra pode até rolar, mas nada impede
que ela sempre se cale, ou então,
em menos de um segundo, um dia,
rache numa gargalhada.
Teu amplo respiro
Em que se insinuam
Cetáceos
E cada
Corpo marinho, imponderável
Usina integradora de usinas
A flor
Anêmonas em vendaval
Teus corvos são
Esqualos
Teu amarelo
Azul
Onde o sol
Deita vibrantes raízes
Marmóreas
Que adelgaçam
Sempre e sempre
Sem tocar teu leito
Seio entre seio
Em que pensas?
Sempre que penses
Pélago
Eterno presente
Monolito
Indolente
Em toda gota
Pressentido
Cada gota, transparente
Olho um
E sei-o
Todo.
Toda miragem
Aponta um oásis
Todo oásis ornamenta
Um deserto
E no interior do deserto
O deserto interior
De quem procura
O que achou de procurar.
Toda memória é
Miragem e tais
Miragens ornamentam
Oásis
Do que foi
Do que não foi
Que deveria ter sido.
Poema de Areia
Tantos oásis
Que à pena se vê
Traço de areia
Entre eles.
Toda sede
Duplicada na sede
Do deserto
Uma miragem de sede
No oásis ao sol
Batendo a
Pino solto.